A MULHER QUIXOTE

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A MULHER QUIXOTE, QUIXOTE FEMININO, A DAMA QUIXOTE OU ARABELLA

Todos estes títulos são iguais e referem-se à obra de Charlotte Lennox, a amiga de Richardson e do Dr. Johnson.

Lido por Jane Austen, Arabella conta a história de uma mocinha rica, ingênua, obcecada por romances franceses e que acredita em tudo o que lê! Criada por um pai viúvo e recluso em um castelo isolado, Arabella se educou por meio de romances medievais, levada a acreditar que seus dramas e absurdos são reais. Ela segue cegamente seus exemplos e interpreta sua vida cotidiana através de suas páginas, pensando que a vida consiste em paixões incontroláveis e violência assassina, e que qualquer cavalheiro morreria por ela. Assim, ela embarca em uma série de desventuras hilariantes, insistindo na realidade de seu mundo imaginário, como, antes dela, Dom Quixote.

Romances franceses

Arabella é uma jovem donzela nobre, filha de um marquês viúvo que, antes mesmo do casamento, isolou-se em um castelo no campo após se desiludir com a “humanidade”. A mãe de Arabella faleceu três dias após o parto e a menina cresceu com a companhia apenas do pai, dos criados e dos romances franceses da mãe. Esses romances extravagantes, de dois mil anos atrás, juntamente com o isolamento, deram a ela uma noção distorcida de mundo e uma constante expectativa por aventuras, tragédias, sofrimentos e glórias. 

A bela mocinha decorou os enredos dos romances e combinou isso a uma completa ignorância sobre o mundo “moderno”, com muitas aventuras, lutas de espadas e muita confusão. A história de Arabella inverte a de Dom Quixote: assim como Dom se confunde com o herói cavalheiresco de um romance, Arabella se confunde com a donzela. Originalmente publicado em 1752, Arabella, ou A Dama Quixote, foi o segundo e o mais bem-sucedido romance de Lennox, que despertou a admiração de Joseph Fielding e Samuel Johnson, o Dr. Johnson.

QUEM FOI CHARLOTTE LENNOX?

Charlotte Lennox (1729-1804) foi uma autora londrina do século XVIII, cujo romance mais célebre é The Female Quixote (1752), lançado pela Pedrazul como Arabella, A Dama Quixote. Esta é apenas uma das dezoito obras publicadas ao longo de 43 anos da autora. Suas histórias de mulheres independentes influenciaram Jane Austen, especialmente em seus romances A Abadia de Northanger e Razão e Sensibilidade. A admiração de Austen pelo trabalho dessa autora é expressa em uma de suas cartas para sua irmã Cassandra: “[…] Mudamos para The Female Quixote, que é agora a diversão de nossas noites; para mim, uma grande diversão…”

MINIBIOGRAFIA

A biografia de Charlotte Lennox, escrita por Susan Carlile, 1970, “insere Lennox no contexto da história intelectual e cultural e se concentra em seu papel como uma figura central na profissionalização da escrita na Inglaterra”. De acordo com Carlile, Lennox participou das discussões literárias e sociais mais importantes de seu tempo, incluindo debates sobre autoria feminina, a elevação de Shakespeare a poeta nacional e o papel dos periódicos como textos didáticos para uma população cada vez mais letrada. Lennox também contribuiu para tornar o drama grego disponível para o público de língua inglesa e foi a pioneira na serialização de romances em revistas. O trabalho da biógrafa Carlile é o primeiro tratamento biográfico dedicado à autora e revela como Lennox fazia parte de um movimento literário e social ambicioso no século XVIII.

Charlotte Lennox nasceu Charlotte Ramsay, provavelmente em Gibraltar, e morreu em 1804, em Londres. Portanto, foi uma romancista inglesa cujo trabalho, especialmente The Female Quixote, foi muito admirado por figuras literárias importantes de seu tempo, incluindo Samuel Johnson e os romancistas Henry Fielding e Samuel Richardson, embora os dois últimos fossem inimigos. Charlotte Ramsay era filha de um oficial do exército britânico que teria sido vice-governador da colônia de Nova York. Em 1743, após a morte de seu pai, ela voltou para a Inglaterra, aparentemente para viver com parentes. Ela tentou ganhar a vida como atriz, mas não obteve sucesso, e resolveu se dedicar ao trabalho literário. Alguns de seus poemas foram publicados em 1747, e no mesmo ano ela se casou com Alexander Lennox. Charlotte foi a responsável pelo primeiro estudo comparativo do material original de William Shakespeare, chamado Shakespear Illustrated, de 1753 a 1754, um projeto no qual ela pode ter sido assistida pelo Dr. Johnson. O primeiro romance de Lennox foi A Vida de Harriot Stuart, lançado em 1751. Seguiram-se The Female Quixote, 1752, e Henrietta, 1758. Ela tentou escrever para o palco também, mas não obteve sucesso. Apesar da amizade de Johnson e Richardson, e da aprovação de Fielding, Lennox ganhou pouco com a venda de seus livros. Ela morreu na pobreza.

Arabella, uma criaturinha quixotesca

Em The Female Quixote,Charlotte Lennox traz a indisciplinada e quixotesca Arabella, uma dama reclusa nos confins da Inglaterra e orientada pelos romances franceses. Antes de qualquer coisa vamos definir o termo quixotesco: segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o principal sentido do termo é de alguém “generosamente impulsivo, sonhador, romântico, nobre, mas um pouco desligado da realidade”. Conclui-se, então, que é uma pessoa que revela generosidade, que possui ideais nobres, mas que é ingênua e distraída. Bem, de fato, a protagonista dessa obra, a jovem Arabella, é ingênua, possui bom coração, é extremamente romântica e, da mesma forma, é demasiado impulsiva. A história tem início com Arabella, a filha de um marquês, mergulhada no mundo da literatura romântica francesa, na qual homens galantes e mulheres importantes vivem em um mundo arcaico, cuja hierarquia é de extrema importância. A confusão que Arabella faz devido à sua mente romantizada conflitará com a mentalidade prática e “sensata” da sociedade masculina inglesa do século XVIII. Consequentemente, levantará a questão de como os textos, especialmente os fictícios romances franceses, educavam as pessoas para “ler” o mundo ao seu redor.  Os problemas de Arabella decorrem de seu fracasso em reconhecer a diferença entre os enredos dos romances e a realidade. Há indícios de uma crítica da autora, não somente pelos homens da época tentarem “domar a mulher quixote rebelde”, mas também “domesticá-la”, fazendo-a assumir seu papel como uma esposa inglesa adequada.

Arabella teve acesso a esses romances através de sua mãe, que, ao se casar com um marquês, prevendo o isolamento e solidão futuros, levou consigo para o campo, como parte do enxoval, uma coleção de romances franceses, que, pela citação de personagens por Arabella e depois através de boca própria, percebemos que a maioria deles foi escrita por Madeleine de Scudéry, autora francesa do século XVII, obviamente lida por Charlotte Lennox. Talvez, para plena compreensão da intenção por trás do romance de Lennox, seja importante falar um pouco sobre Madeleine de Scudéry, conhecida também como Mademoiselle de Scudéry, primeira mulher literata da França. Ela era a irmã mais nova do escritor Georges de Scudéry. Madeleine de Scudéry abriu seu próprio salão literário, que era frequentado por grandes nomes como Montausier, François de La Rochefoucauld, Madame La Fayette, Sevigné, Conrart, Chapelain. Era autora conceituada na França e até foi agraciada com o prêmio de eloquência da Academia Francesa. Foi, inclusive, a primeira mulher a obter esse prêmio. Suas várias novelas eram cheias de personagens clássicos e orientais, heróis românticos e heroínas que buscavam o amor a toda prova. Muitas de suas heroínas são citadas por Arabella na trama. Histórias de heroísmo e paixões ardentes, sobre as vidas ficcionais de rainhas da antiguidade. Nelas, as heroínas viviam aventuras tumultuadas: seus amantes passavam pelas mais difíceis provas de coragem e devoção antes de conquistarem o direito a lhes declarar seu amor; os vilões, por sua vez, incansavelmente as perseguiam e ameaçavam com tentativas de rapto, estupro e aprisionamento, tudo isso pululava a imaginação da nossa heroína Arabella. Madeleine de Scudéry foi influência para várias autoras inglesas góticas do século XVIII, entre elas: Ann Radcliffe; Charlotte Smith e a irlandesa Maria Regina Roche. A obra Emmeline, de Charlotte Smith, está povoada pelos assuntos preferidos da francesa Scudéry.

Como esses romances franceses fizeram parte do dote da mãe de Arabella, tornaram-se, com a morte precoce, seu único legado para a filha. Ela, portanto, não apenas os leu avidamente, mas também os tomou por narrativas de histórias verdadeiras, colocando-se em pé de igualdade com essas heroínas e aspirando altos ideais românticos, com exigências fora da realidade inglesa daquela época. No comportamento dos cavalheiros que vão se aproximar dela no livro, Arabella enxerga indícios de paixão, ora do herói, ora do vilão. “Assim como o Quixote de Cervantes, a Quixote mulher parece enlouquecida pelos romances.

No final da obra, Arabella alcança insight psicológico sobre caráter e motivações. Ela é bem-sucedida ao discriminar entre pretendentes valorosos e vis (Glanville ou Sir George), homens verdadeira e pretensamente eruditos (o doutor e Mr. Selvin), mulheres sábias (a Condessa), levianas (Miss Glanville, sua prima), dignas de confiança (sua acompanhante, Lucy). Isso favorece sua conduta, permitindo-lhe boas escolhas e respostas apropriadas. Ela confronta a realidade com ficção e revisa suas crenças.

Lennox escreveu a conclusão do livro sob a tutoria de Dr. Johnson. Para alguns, a hipótese de que a conclusão tenha sido escrita pelo próprio Dr. Johnson soa plausível.

Concluindo, The Female Quixote é um romance em forma de paródia, que, embora traga diferentes pontos de vista da intenção da autora ao escrevê-lo, deve ser lido como uma das influências para grandes autoras que admiramos, entre elas Jane Austen.

Este livro é exclusivo para assinantes do www.clubedeleitorespedrazul.com.br. Saiu na caixa Gibraltar, juntamente com O Dinheiro de Minha Senhora, de Wilkie Collins, que foi o livro brinde.

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