O SEGREDO DE LADY AUDLEY

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Um dos romances mais populares da Era Vitoriana!

O Segredo de Lady Audley, de Mary Elizabeth Braddon, é um daqueles livros que a gente não consegue parar de ler! Para começar: eu acho sua capa maravilhosa e tem tudo a ver com a personagem principal!

Quando a jovem e encantadora Lucy Graham se casa com o baronete viúvo Sir Michael Audley, pouco se sabe sobre seu passado. Após o misterioso desaparecimento de seu amigo, George Talboys, o sobrinho de Sir Michael, chamado Robert Audley, começa a investigar a nova esposa do seu tio, que possui um passado envolto em mistérios. Mas ele está determinado a descobrir a verdade.

Alguns pontos devem ser destacados logo no início: quando Sir Michael Audley, que é dono de uma rica propriedade, casa-se de muito bom grado com a linda governanta Lucy Graham, ele desagrada algumas pessoas, entre elas, sua única filha. Outro ponto é que, embora Lucy Graham seja a lady Audley que dá título à obra, o personagem principal é Robert Audley, o sobrinho do baronete.

Há outro personagem muito importante: George Talboys, amigo de Robert, que retorna de uma aventura na Austrália depois de três anos na exploração de ouro –, descobre que sua esposa havia morrido em sua ausência. 

Um livro cheio de segredos cabulosos, que, como eu disse, segura o leitor pelos enigmas e mistérios. Mas o que se percebe é que as consequências e a extensão desses segredos, mistérios e enganos excedem toda imaginação.

MARY ELIZABETH BRADDON, A “RAINHA DA SENSAÇÃO”

Mary Elizabeth Braddon foi hostilizada por ter sido atriz

Se o título “Rei do Romance Sensação” pertence a Wilkie Collins, autor de A Pedra da Lua, por inaugurar o gênero “Romance Sensação” com A Mulher de Branco, em 1860, o título “Rainha do Romance Sensação” pertence a Mary Elizabeth Braddon (1835–1915), por ser a primeira escritora a escrever uma novela sensação, O segredo de lady Audley, lançado em 1862. Alguns relatos de sua vida indicam 1837 como o ano de seu nascimento, aparentemente porque, à medida que envelhecia, tentava cortar vários anos de sua idade. A ela podem ser atribuídos mais de oitenta romances, sendo o número exato uma questão de debate, pois seu marido, John Maxwell, publicou alguns trabalhos sob uma variedade de pseudônimos em suas várias revistas literárias.

Mary Elizabeth Braddon foi uma das autoras mais populares e injuriadas da Era Vitoriana. Estranhamente pouco conhecida atualmente e com apenas um de seus livros nas prateleiras dos livreiros. Hoje, é lembrada, principalmente, pelo furor de sua obra mais famosa, O segredo de lady Audley.

Livro inspirado em um caso real

Na época de sua publicação, o livro escandalizou a nação. Baseado no caso real de Constance Kent – que vamos relatar mais à frente –, O segredo de lady Audley é uma trama envolvendo bigamia, incêndio criminoso e, quem sabe, até assassinato. Lucy Graham, muitas vezes aclamada como uma das primeiras protagonistas feministas, inspira simpatia e escárnio ao mesmo tempo. Se ela será tratada como uma anomalia aterrorizante ou uma mulher moderna que busca ascender na escala social, não há como negar o poder da pequena e linda mulher parecida com uma boneca. 

O best-seller de Braddon traz uma jovem misteriosa que, escondendo seu passado, tenta subir na escala social – e sobe – usando uma mentira. É uma trama que justifica estar entre os melhores romances do mundo. Uma obra que desafia suposições sobre a natureza da feminilidade e investiga a tênue separação entre sanidade e insanidade. Combinando elementos do romance policial e suspense psicológico, o romance – que se passa na classe alta inglesa – foi um dos mais populares e bem-sucedidos do século XIX.

Um parêntese, antes de falar sobre as inspirações de Braddon para compor sua obra-prima. O segredo de lady Audley não contém violência, porém, astúcia, mentira e, obviamente, como o título já diz, segredos. Portanto, se não aprecia ler sobre tragédias reais, não prossiga com a leitura, pois a inspiração para a escrita do livro, aí sim, contém horror; um dos casos envolvendo uma rica família inglesa, extremamente repercutido na época, que influenciou não somente Braddon, mas também Wilkie Collins e, certamente, outros escritores.

A autora não somente se inspirou em casos de assassinatos ocorridos em meio aos ricos, mas também na classe popular para compor seu best-seller, como o caso de Marie Manning (1821–1849), uma empregada doméstica suíça, que foi enforcada no telhado da prisão Horsemonger Lane Gaol, em 13 de novembro de 1849, em Londres, depois que ela e o marido foram condenados pelo assassinato do amante da mulher, Patrick O ‘Connor, no caso que ficou conhecido como o “horror de Bermondsey”. Foi a primeira vez que um marido e uma esposa foram executados juntos na Inglaterra, desde 1700. Mas foi o terrível caso da classe alta que inspirou Braddon a escrever O segredo de lady Audley, um livro que supostamente envolve crime, mas também possui um enredo digno dos melhores romances de amor.

O caso de Constance Kent, ocorrido na Inglaterra na Era Vitoriana, inspirou não somente Braddon, mas também Wilkie Collins no seu famoso A Pedra da Lua (1868). Um caso macabro de assassinato de uma criança de três anos, mas esse foi apenas o começo dessa história perturbadora.

O caso foi conhecido como o “Grande Crime de 1860”. Começou assim: os jornais noticiaram que, em 29 de junho, um assaltante desconhecido havia assassinado Francis Savile Kent, de 3 anos, de forma brutal. A Scotland Yard, que tanto vemos nas obras de Wilkie Collins e outros clássicos, foi chamada para investigar o caso. O público acompanhou de perto, através da imprensa, a terrível saga que fascinou, além dos autores já citados, Charles Dickens e Arthur Conan Doyle.

Assassinato

Um assassinato brutal na Road House Hill, casa da rica família Kent, que vivia na pacífica Wiltshire, distante de Londres cerca de 158 quilômetros. Na elegante Road House Hill, viviam nove pessoas, contando com três empregados. Pacífica até 29 de junho de 1860, quando, pouco depois da meia-noite, o cachorro da família latiu. Não foi até a manhã seguinte que a babá, Elizabeth Gough, descobriu a causa: quando acordou para verificar os três filhos mais novos de Mr. Kent, percebeu que Francis havia desaparecido.

A criança não foi achada e seu pai, Samuel Kent, prometeu uma recompensa para quem conseguisse encontrar o menino. Vizinhos foram chamados para ajudar na busca e logo encontraram sangue. Alguém havia enfiado um cobertor ensanguentado na latrina – junto com o corpo do jovem Francis. O sapateiro William Nutt retirou cuidadosamente o corpo. “Sua cabecinha quase caiu”, contou Nutt. O assassino cortou a garganta de Francis tão profundamente que o menino quase foi decapitado”.

Thomas Benger, um fazendeiro que ajudou a encontrar o corpo, relatou: “Sua garganta foi cortada e sangue espirrou em seu rosto…” A polícia local logo suspeitou de Elizabeth Gough, a babá. Como alguém poderia ter levado o menino sem que ela percebesse? A teoria da polícia postulava que Elizabeth havia escondido um amante na casa, e Francis os encontrou. Os amantes assassinaram o menino para encobrir seu caso. A polícia prendeu Elizabeth Gough, e rumores circularam de que ela havia confessado o crime e nomeado o pai da criança como seu amante. Mas a babá não havia confessado nada, era tudo boato, e a polícia acabou por libertá-la.

O jornal Correio da Manhã publicou a manchete: “Acaba de ser cometido um crime que, por mistério, probabilidades e maldade hedionda, não tem paralelo em nossos registros criminais”. Depois que a polícia local foi ineficiente, o detetive-inspetor Jack Whicher (um dos primeiros inspetores detetives da Scotland Yard, inspiração para o sargento Cuff de A Pedra da Lua de Collins) viajou para Wiltshire para investigar o crime brutal. Ele começou a olhar atentamente para a família Kent. Os filhos mais velhos tinham uma mãe diferente dos três mais novos.

A primeira esposa de Samuel Kent, Mary Ann, teria enlouquecido e morrido aos 44 anos. Kent, então, casou-se rapidamente com a preceptora contratada para cuidar da jovem Constance Kent, e o casal teve mais três filhos. O detetive Jack Whicher logo concebeu uma nova teoria: a adolescente Constance havia matado seu irmão. A polícia prendeu Constance. “Constance Kent era extraordinariamente forte”, dissera Whicher. Ela também dormia sozinha e, no passado, havia escondido coisas nos quartos dos empregados para culpá-los de roubo. Mas a única evidência física que ligava Constance ao crime era uma camisola desaparecida – aquela que Whicher acreditava que Constance estava usando quando matou a criança. Aqui, nesse relato, vemos muita similaridade com o roubo de A Pedra da Lua, de Collins, em que uma peça de roupa também desapareceu.

Embora o crime de Wiltshire tenha inspirado Collins, inspirou igualmente Braddon a escrever seu famoso Lady Audley’s Secret, lançado dois anos após os fatos, um romance com um total de oito edições nos primeiros três meses após a publicação original, que lhe rendou uma fortuna, a ponto de ela construir para si uma mansão e dar adeus aos anos de pobreza.

O detetive Whicher interrogou Constance Kent por uma semana, mas esta se recusou a ceder. Finalmente, ele a soltou e o caso esfriou. Whicher disse: “Só saberemos a verdade quando Constance Kent confessar”. Cinco anos depois, Constance Kent confessou o crime. Ela havia agido sozinha, foi o que disse na época, mas nunca expressou um motivo para o assassinato, além do ciúme. Mas talvez ela tivesse herdado a insanidade da mãe.

Este foi o ponto em que Braddon se agarrou para defender sua tese em um de seus romances mais brilhantes – este que você lê. Aurora Floyd, publicado em 1863, também obteve grande sucesso, além de A Vitória de Eleanor (Eleanor’s Victory)O Legado de John Marchmont (John Marchmont’s Legacy), ambos em 1863; e Henry Dunbar e A esposa do médico (The Doctor’s Wife), em 1864. Entretanto, voltando à inspiração da autora, nenhum jornal da época – tampouco os detetives –levantaram a hipótese de loucura hereditária para Constance Kent.

Inspirada em Constance Kent, Braddon criou uma linda jovem de cabelos loiros, dona de uma risada infantil, que mais parecia um doce canto de sereia, por quem todas as pessoas ficavam encantadas, hipnotizadas; impossível pensar que por trás de tanto esplendor houvesse maldade.

Concluindo a história real que inspirou várias ficções, os jornais da época chamaram Constance Kent de “assassina a sangue frio”. “Com uma vontade de ferro, nervos e pulso de aço, ela levou seu próprio irmão do sono feliz da inocência… e quase decepou sua cabeça”. A confissão de Constance Kent ganhou as manchetes em todo o mundo. O interesse público foi intenso, somente o Times publicou dez reportagens entre julho, quando o caso foi descoberto, e dezembro. Depois que a meia-irmã confessou, o Times publicou mais treze reportagens, entre abril e agosto de 1865.

O julgamento ocorreu em julho de 1865. Constance se declarou culpada, mas se recusou a responder as perguntas. A audiência levou menos de 30 minutos, e o juiz rapidamente condenou Constance Kent à morte por enforcamento. Entretanto, a rainha Vitória substituiu a sentença e Constance Kent foi condenada à prisão perpétua. Cumpriu 20 anos, foi libertada em 1885, aos 41 anos, e depois desapareceu dos registros. Na década de 1970, descobriu-se que havia mudado seu nome para Ruth Emilie Kaye. Depois, havia emigrado para a Austrália, onde foi morar com seu irmão William, na Tasmânia, tornando-se enfermeira. Morreu lá, aos 100 anos, em 1944.

Mas muitos tinham dúvidas sobre a confissão de Constance Kent. Por que ela cometera aquele crime brutal – e por que confessou apenas cinco anos depois? Ela estava encobrindo o verdadeiro assassino? E o pai, Samuel Kent? Ele tinha um histórico de seduzir as preceptoras de seus filhos, então talvez a teoria original não estivesse muito longe da verdade. Ou Constance estivesse protegendo seu irmão, William? Quando crianças, os dois fugiram para Bath para escapar de sua família. Quando foram pegos, ambos foram espancados e Constance ficou trancada no porão por dois dias. A verdade do que aconteceu na Hill House Road, na noite em que Francis Kent morreu, pode permanecer para sempre um mistério. Mas Constance Kent entrou para a história como uma assassina adolescente fria e calculista.

MINIBIOGRAFIA DE BRADDON

A infância de Mary Elizabeth Braddon

Depois que você tomou ciência de que Braddon foi uma autora de muito sucesso, que obtivera inspiração para este livro em casos reais, talvez tenha interesse em conhecer sua trajetória.

Mary nasceu em 4 de outubro de 1835 em uma família da Cornualha, mas seus pais se separaram quando ela contava apenas quatro anos e ela e seus dois irmãos se mudaram para Sussex com a mãe, estabelecendo-se pouco depois em Kensington. Aqui, sua escola foi em Scarsdale, uma escola particular para meninas. Depois, foi para um internato em Dartmouth Lodge, onde recebeu uma boa educação, mas foi o presente de seu padrinho, uma escrivaninha, aos seis anos, que despertou seu interesse e talento para se tornar uma autora. Mary escreveu várias histórias quando criança, cada uma baseada em contos de fadas tradicionais, e teve um resultado sensacional, prefigurando seus romances posteriores.

Carreira Teatral

Uma mulher liberal e muito criticada

Mas era evidente que ela ansiava por causar algum tipo de impressão no mundo. Aos 17 anos, mudou-se para Bath, ingressou em uma companhia de atuação e obteve sucesso suficiente devido ao seu compromisso com uma profissão muitas vezes duvidosa. Como disse seu filho, W. B. Maxwell, ela escolheu essa carreira para se sustentar, na esperança de ganhar dinheiro suficiente para manter sua mãe, devido à falta de compromisso familiar de seu pai.

A carreira de atriz de Braddon durou cerca de oito anos, começando em 1852, mas essa escolha causou polêmica dentro de sua família, forçando-a a adotar um nome artístico para manter a respeitabilidade – Mary Seyton. Ela percorreu as províncias, começando em Southampton e viajando para Winchester e Reading, além de ir para a Escócia por um curto período, em 1855. À medida que sua carreira se desenvolvia, ela passou de figurantes em cenas de multidão, para ter pequenos papéis de fala, eventualmente subindo para grandes papéis coadjuvantes e, finalmente, tornando-se uma protagonista. Braddon trabalhou duro, tinha talento para atuar, gostava de sua carreira, e assim conseguiu sustentar sua família através dessa profissão. A maioria das peças em que Braddon atuou era de comédia e farsa, mas ela também atuou em peças burlescas, pantomimas e produções shakespearianas, incluindo comédias, histórias e tragédias.

Londres

Em 1856, uma vez alcançado o status de protagonista nas províncias, mudou-se para o Surrey Theatre para lançar sua carreira em Londres. Esta mudança pretendia consolidar sua posição como atriz credível e permitir-lhe assumir papéis mais exigentes, prestigiados e, portanto, mais rentáveis. No entanto, recebeu críticas variadas que menosprezaram sua estreia, fazendo de sua primeira temporada em Londres um fracasso, não restando outra alternativa senão voltar ao circuito provincial.

Em seu retorno de Londres, juntou-se à companhia dos senhores Wolfenden e Melbourne, no Hull’s Queen’s Theatre, que, por seis noites, se apresentou no Beverley Assembly Rooms. Em 1857, mudou-se para Brighton, juntando-se à companhia de Henry Nye Chart, onde parece ter começado a interpretar papéis que eram, em sua maioria, velhos demais para ela, o que sugeria que sua popularidade e sua incapacidade de sustentar sua carreira como atriz estavam em declínio, confirmando o curto tempo de vida do qual as atrizes estavam muito cientes. A aptidão para interpretar protagonistas acabou e, então, ela partiu para seguir carreira como escritora, escolha que todo leitor do mundo agradece.

Durante a carreira teatral, Braddon havia conhecido John Gilby e Edward Bulwer Lytton, os quais ela descreveu como “o trono e o poder”. Ambos se tornaram seus mentores literários, aconselhando-a sobre quais exposições ver, enviando seus livros para ela ler e revisando seu trabalho. O primeiro romance de Braddon não foi um sucesso financeiro, mas deu a ela conhecimento prático da indústria editorial e de serialização.

A ascensão da ficção sensação

Em Londres, Mary começou, de fato, sua carreira como escritora, assumindo outro pseudônimo, desta vez de gênero ambíguo: M. E. Braddon. Foi aqui, na década de 1860, que alcançou fama duradoura com o romance sensação O segredo de lady Audley, considerado, anos depois, como um dos “cem melhores romances do mundo”. Este romance cimentou sua reputação como autora que investigava o lado mais sombrio das classes altas, levando um crítico a argumentar que Braddon havia “temporariamente conseguido fazer da literatura da cozinha a leitura favorita da sala de visitas”. Deste ponto em diante, ela escreveu dois romances por ano e conseguiu comprar uma grande casa de família, a Annsley Bank.

Vida familiar e escândalo

Depois de conhecer o editor Maxwell, em abril de 1860, Braddon foi morar com ele em 1861, tornando-se madrasta de seus cinco filhos. A esposa de Maxwell, Mary Ann Crowley, é frequentemente descrita como residente em um asilo mental irlandês, mas na verdade ela estava com sua família. Braddon e Maxwell viveram como marido e mulher e tiveram seis filhos: Gerald, Fanny; Francis (que morreu aos três anos); William Babington; Winifred Rosalie (Rosie) e Edward Henry Harrington (Ted). Em 1864, porém, surgiu a controvérsia: para esconder sua união heterodoxa, Maxwell disse aos jornais que havia se casado com Braddon. Esses avisos destinavam-se a subjugar a fofoca pública sobre decoro; no entanto, Richard Brinsley Knowles, um jornalista britânico, escreveu para esses jornais, informando-os de que sua cunhada e verdadeira esposa de Maxwell ainda estava viva, expondo o status de Braddon de “esposa” como uma fachada.

Em 5 de setembro de 1874, a esposa de Maxwell morreu, revivendo a revelação pública de que sua união não era sancionada por lei. Maxwell enviou a Mr. Crowley, irmão de Mary Ann, três mensagens, pedindo-lhe para manter o funeral em sigilo. Mas Knowles publicou na maioria dos jornais de Londres um anúncio da morte de Mary Ann, e Maxwell, contrariando essas mensagens, circulou um memorando privado para amigos e familiares, desacreditando a notícia. Quando Knowles descobriu o ardil de Maxwell, revelou toda a história. Em 2 de outubro de 1874, assim que legalmente possível, Braddon e Maxwell se casaram. Depois, mudaram-se para o Chelsea, deixando o burburinho diminuir, retornando a Litchfield um ano depois. Durante esse período, os Maxwells ofereciam continuamente jantares e encontravam amigos; sua posição social não havia sido irreversivelmente danificada.

Revista Belgravia

Com base no sucesso como escritora, Braddon começou a editar suas próprias revistas – Belgravia e Belgravia Anual –, dando a si mesma mais segurança como autora.

Belgravia era uma revista mensal, que custava um xelim, e destinava-se a um público requintado. Foi relativamente bem-sucedida, de 1866 a 1876, e manteve uma circulação média de 15.000 exemplares, chegando a 18.000 em 1868. Depois que Maxwell vendeu a Belgravia e a Belgravia Anual, em 1878, Braddon começou a editar The Mistletoe Bough, um anuário de ficção de Natal, no mesmo ano. Ao produzir um anuário especificamente para o Natal, ela novamente aproveitou um mercado já estabelecido, mas em expansão, indicando forte senso para os negócios.

The Mistletoe Bough concentrou-se na ficção, não em ensaios ou artigos, e esse formato atraiu a admiração da crítica do The Examiner: “o gosto do público se inclina fortemente para ficção compacta e emoção concentrada, na forma de contos, este excelente enfeite de Natal é uma prova”, terminando com uma “aprovação calorosa de The Mistletoe Bough”. No entanto, seus deveres como editora não impediram Braddon de escrever romances. Ela continuou a publicar vorazmente e, embora nenhum de seus trabalhos posteriores correspondesse à popularidade de O segredo de lady Audley e Aurora Floyd, seus romances, peças e contos permaneceram presentes aos olhos do público até sua morte.

Os romances de Braddon eram frequentemente adaptados para o palco – às vezes sem sua permissão – depois de seu lançamento, pelos 100 anos seguintes. O segredo de lady Audley seria adaptado para a tela quatro vezes, mais recentemente em filme de TV do ano 2000.

Apesar de suas muitas doenças, Braddon sempre acompanhou as mudanças do tempo: por volta do ano de 1912-3, comprou um carro; em 1913, assistiu ao lançamento cinematográfico de Aurora Floyd; e, em 1914, quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, ajudou pacientes em hospitais, dando continuidade ao trabalho de caridade que manteve ao longo de sua vida. Em 4 de fevereiro de 1915, Braddon morreu, após “a ruptura gradual de vários vasos sanguíneos menores no cérebro”, deixando um enorme legado.

Ela foi a primeira inventora dessa heroína gentil e amável, de cabelos louros, olhos azuis e capaz de todos os tipos de crimes, que outros autores, copiando o modelo de Braddon, repetiram tantas vezes desde então. Braddon foi talvez a mais completa contadora de histórias de todos os tipos, não se limitou a esse ou qualquer outro tipo de personagem ou estilo, mas variou amplamente em todas as cenas e assuntos ingleses, sempre com o poder de interessar o público, que é uma das primeiras qualidades de um bom romancista.

Annsley Bank ficava em meio à floresta. Comprou-a com a renda de O Segredo de Lady Audley

Braddon tornou-se uma das escritoras mais célebres e mais vendidas do século XIX, autora de cerca de oitenta romances, dezenas (possivelmente centenas) de contos e editora respeitada de duas revistas literárias. Em 1901, o autor inglês Arnold Bennett observou que, embora algumas pessoas pudessem ter ouvido falar de Thomas Hardy ou George Meredith, todos conheciam Braddon, descrevendo-a como “parte da Inglaterra”.

Ela era feminista, defendia os direitos das mulheres, no entanto, não era sufragista, nem mesmo radical – em sua visão política, era uma conservadora convicta. Afinal, o marido Max foi por muitos anos um conselheiro conservador em Richmond, e eles mantiveram a bela casa lá até a morte de Mary, em 1915.

Em sua obra, Braddon deixa claro que, nominalmente, o homem pode até ser o líder de uma casa, mas quem lidera o homem é mesmo a mulher. “Que solução maravilhosa para o enigma da vida existe no governo de uma anágua! Um homem pode deitar-se ao sol e comer lótus e imaginar que é “sempre à tarde”, se sua esposa o deixasse! Mas ela não vai, abençoe seu coração impulsivo e sua mente ativa! Ela sabe melhor do que isso. Quem já ouviu falar de uma mulher levando a vida como deveria ser levada?”

Mas Braddon também critica as mulheres: “Elas querem liberdade de opinião, variedade de ocupação, não é? Deixe-as ter. Que sejam advogadas, médicas, pregadoras, professoras, soldadas, legisladoras – qualquer coisa que quiserem – mas que fiquem caladas – se puderem”. Portanto, ela não foi sempre complacente com seu gênero em sua obra; embora fosse uma fiel defensora dos direitos das mulheres, não disfarçava suas falhas. No livro que você tem em mãos, Robert Audley, o mocinho, vai dizer: “Eu odeio mulheres. Elas são criaturas abomináveis, ousadas e descaradas, inventadas para o aborrecimento e destruição de seus superiores”.

Quando revisada, a maioria de suas primeiras obras foi condenada, não por deficiência literária, mas por sua moralidade. Mas ela teve adeptos no mundo editorial, porque suas obras eram muito populares entre o público. Uma história de Mary Braddon vendia. Seu romance mais renomado hoje é este, provavelmente escrito principalmente em 1861, quando ela contava cerca de 26 anos. Como falamos, O segredo de lady Audley trouxe-lhe fortuna. Também a estabeleceu como uma das principais autoras de Sensation Novels da época. Na história da ficção policial, Braddon foi citada por alguns como a primeira a introduzir o “detetive privado” na pessoa do sobrinho de lady Audley, Robert Audley.

Como sua personagem em O segredo de lady Audley, que possuía vários nomes, Mary também teve sua quota de pseudônimos. Os que conhecemos são Mary Seyton e M. E. Braddon, mas teve inúmeros outros. Segundo o The Literary Lives of M. E. Braddon (Sensation Press, 2000), Mary é descrita por seu filho como uma “mulher maravilhosa”. Se não foi maravilhosa, pois todos temos defeitos, foi realmente uma mulher notável.[1]

O segredo de lady Audley é exclusivo para assinantes do www.clubedeleitorespedrazul.com.br.


[1] Braddon, Mary Elizabeth (Maxwell): Who’s Who, v. 59, 1907. p. 201-202; BOARDMAN, Kay; JONES, Shirley. Popular Victorian Women Writers, 2004; Literature. Popular Press, 1983. p. 36-37; The Victorian Sensation Novel: 1860-1880; KYLE, N. J. A Greater Guilt: Constance Emilie Kent & the Road Murder. Brisbane: Boolarong Press, 2009.

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